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O que é verdade em “Uma Mente Brilhante”?

O filme “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind, 2001), estrelado por Russell Crowe e dirigido pelo ex-ator Ron Howard, foi sucesso mundial, vencedor do Oscar® de melhor filme. O filme narra a história de John Forbes Nash, um gênio matemático que, aos 21 anos de idade, desenvolveu a teoria dos jogos não-cooperativos, de onde surgiu o termo “Equilíbrio de Nash”, ganhando o Nobel de Economia por esse trabalho.

Eu disse “narra a história”, mas a verdade não é bem essa. O filme, admito, é excelente e muito inteligente, faz com que o espectador prenda a atenção na tela, se surpreenda, se emocione… em suma, faz com que o espectador compre a história e fique torcendo pelo protagonista. Há cenas interessantíssimas no filme, como a cena do bar em que Nash tem a idéia para seu trabalho, o pedido de casamento, a descoberta da esquizofrenia, a maneira com que Nash consegue “domar” a doença, sem falar na surpresa que temos ao descobrir que certos fatos da vida do matemático só existiam em sua mente, brilhante mas doente. É formidável como a competente atuação de Russell Crowe é capaz de tornar o filme sublimemente cativante. E não só sua atuação tem parte nesse sucesso, o roteiro também tem papel decisivo.

Acontece que o roteiro não relata a vida de John Nash. A única verdade na história contada por Hollywood é que Nash realmente foi laureado com o Nobel de Economia pelo artigo dos jogos e foi atingido pela esquizofrenia. De resto, toda a história é fantasia hollywoodiana pura. Uma linda fantasia, é claro.

Baseado no livro homônimo de Sylvia Nasar foi roteirizado por Akiva Goldsman, responsável pelos roteiros dos filmes Batman Eternamente, O Cliente, O Código da Vinci, Eu Sou a Lenda, entre outros. O que Akiva faz é criar outra história, totalmente diferente da relatada no livro, a tal ponto de nem podermos dizer que as histórias se tratam da mesma pessoa.

Às omissões:

John Nash era bissexual, teve vários casos com homens, sendo que foi preso certa vez por ter relações com outro homem em banheiro público, o filme não faz sequer menção a isso.

Ele teve também um filho com outra mulher antes de conhecer sua esposa e, apesar de ter escolhido o nome de John ao filho, negou a paternidade e se recusou a dar qualquer ajuda à mulher (seja financeira ou não) apesar de ter perfeitas condições de fazê-lo. A situação foi tão absurda que Nash, para não gastar nenhum centavo, obrigou a mulher a “adotar” o filho a outras famílias, visto que ela não tinha condições de criá-lo sozinha. O pequeno John viajava a diferentes lugares dos Estados Unidos para morar com famílias diferentes.

Ao mesmo tempo em que Nash tinha relacionamento com sua futura esposa, ele também mantinha uma relação conturbada com a mãe de seu filho e com um homem. Sendo que essas pessoas sempre se viam, vez por outra, humilhadas pelo próprio Nash, que as chamava de burras, estúpidas, incompetentes, em público, sem o menor pudor.

Outro fato importante que o filme deixou de fora, foi que Alicia, sua esposa, se separou de Nash em meio à sua época de devaneios da esquizofrenia e só se reconciliou com ele depois do Nobel.

Nash também tentou, em sua loucura, por diversas e insistentes vezes, se tornar apátrida, negando sua nacionalidade estadunidense.

Às diferenças

Nash não via pessoas que não estavam lá. Seu delírio não era dessa maneira. As pessoas que aparecem na trama que depois o matemático descobre que nunca existiram nunca fizeram parte da história verdade de John Nash, elas foram completamente inventadas pela roteirista. Nash não pensava que trabalhava para o governo para evitar ataques da União Soviética e não participou de um acidente de carro achando que estava sendo perseguido.

Seu quadro de esquizofrenia era mais grave do que o relatado no filme. Na verdade, ele acreditava que era uma pessoa escolhida pelos alienígenas para fundar um governo mundial, sendo que mandava cartas a líderes mundiais com recortes de jornais e revistas. Em certa ocasião, negou o cargo de professor na Universidade de Chicago, explicando que seria Imperador da Antárdida. Em outra ocasião, fez intromissões em uma palestra, afirmando que era a foto dele que aparecia na revista Life, e não a do papa João XXIII, e “provou” dizendo que João não era o verdadeiro nome do papa, mas o dele sim, e que 23 era seu número primo favorito.

Ele também foi internado diversas vezes, em clínicas públicas e particulares. Depois da primeira vez ele teve uma boa melhora e conseguiu escrever um respeitável artigo, mas parou de tomar o remédio e teve várias recaídas. Ao contrário do que aparece no filme, Nash não recebeu eletrochoque, mas fez, sim, em sua primeira internação, um tratamento de choque por insulina, que é bem diferente.

Não houve também o pedido de casamento, relatado no livro por Alicia como que se fosse de “comum acordo”. Não houve aliança. Nash era tão sovina que dividiu o valor da aliança de casamento. Nash era também muito mais desagradável do que o filme relata, muito mais presunçoso.

Essas são as diferenças mais marcantes na história de John Nash. Eu me pergunto, por que inventar tanto na história? Tudo bem, o filme é bom, ótimo, mas não poderiam ter usado a mesma história num personagem fictício? Pra que relacionar essa história a uma pessoa que não a viveu?

Resolvi postar isso aqui porque é difícil achar na internet um texto que mostre essas brutais diferenças. E para recomendar a leitura da fascinante e real vida de John Nash.

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Categorias:Cinema, Literatura
  1. janeiro 6, 2010 às 15:01

    Interessante esse post rapaz, assisti o filme e achei interessante.

  2. auta f.f.
    janeiro 20, 2010 às 21:42

    Infelizmente, dificilmente um filme que diz ser real, mostra realmente a realidade.

  3. Gislene
    fevereiro 23, 2012 às 16:11

    Boa tarde, quais as suas fontes para tais relatos à respeito de John Nash? Estou desenvolvendo um trabalho e gostaria de ter algum conhecimento sobre o caso dele.
    meu email. gizapm@hotmail.com
    meu nome Gislene

    • girsaum
      fevereiro 23, 2012 às 17:11

      Olá!

      Respondi seu email!

      Abraços e sinta-se convidada a participar novamente!

  4. Gabriel
    junho 24, 2012 às 20:54

    por favor coloque as fontes

    • girsaum
      junho 24, 2012 às 21:41

      Como assim? A fonte está no texto, são as diferenças entre o filme e a biografia.. leia na postagem:

      “Baseado no livro homônimo de Sylvia Nasar […]”

      “E para recomendar a leitura da fascinante e real vida de John Nash”

      Uma mente brilhante – Sylvia Nasar.

      Abraços

  5. Miguel Suarez.
    outubro 8, 2012 às 20:05

    Ótima matéria. É bom saber mesmo o quanto os filmes “baseados em fatos reais” diferem da realidade. Esses filmes deviam dizer claramente que são ficção, e não se propor a contar a história como se tivessem contando o que aconteceu mesmo.

  6. Vivendo a vida
    outubro 30, 2012 às 20:58

    Uma pergunta de um esquizofrênico:
    Ele conseguiu a cura na vida real?
    Em tempo as atitudes dele coincidem com os sintomas, principalmente com as habilidades para exatas e música, no caso matemática.

    • girsaum
      novembro 12, 2012 às 09:35

      Olá, segundo o livro ele conseguiu ter controle da doença, por força de vontade e novos tratamentos.

  7. Eu
    janeiro 15, 2013 às 18:06

    O texto carece de fonte…

  8. Eu
    janeiro 15, 2013 às 18:07

    não vejo porque confiar em um texto sem fonte… de onde tirou isso? uma biografia? qual?

    • girsaum
      janeiro 21, 2013 às 18:18

      Como dito no texto, as informações são retiradas da biografia, veja a passagem: “Baseado no livro homônimo de Sylvia Nasar…”

      Isso é um blog, não penso que ninguém deva confiar em nada, nem no que qualquer coisa que eu escrevo aqui, mesmo tendo lido que eu citei a fonte, eu poderia estar mentindo.

      Quem quer realmente saber deve ler da fonte, inclusive minha ideia ao escrever sobre o filme e outros obras na série “livros que li” é instigar interesse. Quem quer confiar que leia da fonte.

      Abraços

  9. Johnny
    junho 3, 2013 às 13:41

    Eu :
    não vejo porque confiar em um texto sem fonte… de onde tirou isso? uma biografia? qual?

    O Autor se refere a o livro Uma Mente Brilhante, de Sylvia Nasar Relógio d’Água, 2002, 672 pp.

  10. Johnny
    junho 3, 2013 às 13:41

    Muito boa colocação.
    Ouvi falar sobre o filme na faculdade “direito”, e como gosto de pesquisar estou vendo o seu comentário está mais parecido com o documentário “A Brilliant Madness”.
    Irei comprar o livro Uma Mente Brilhante, de Sylvia Nasar Relógio d’Água, 2002, 672 pp. onde o autor se baseia na resenha.

  11. dezembro 26, 2013 às 04:45

    Olá! Eu acabei de ver o filme (novamente) e decidi pesquisar mais afundo e achei bastante interessante seu artigo. Entretanto a parte da terapia por choque insulínico foi mostrado no filme sim. Se o livro for tão bom quanto o filme, farei o possível para acha-lo.

    • girsaum
      janeiro 16, 2014 às 18:33

      Foi mostrado? Acho que falhei nessa então. O livro é legal mas, apesar da falta de verossimilhança, o filme é muito melhor. Abraços

  12. Julian
    junho 15, 2015 às 11:57

    Eu gostaria de saber se a história que está no livro “Uma mente brilhante” é verídica e confiável ou assim como o livro é fantasiosa.

    • girsaum
      outubro 4, 2016 às 15:58

      É uma biografia que mostra as fontes e não vi contestações fortes dos envolvidos. Parece ser bem confiável. Abraços.

  13. outubro 7, 2015 às 15:19

    E derepente perdi todo o encanto do filme… Mas a batalha dele contra a doença é linda!

  14. Neusa
    março 6, 2016 às 23:50

    Uau! Me surpreendi!

  15. Dra Ana Paula Moura
    julho 12, 2016 às 22:39

    Olha, a biografia citada como fonte, é homônima. É uma ótima fonte, mas vc deveria ler a auto-biografia dele, mais confiável. Além do mais, comportamento agressivo (seja verbal ou físico), é típico da esquizofrenia, portanto, é totalmente compreensível certas atitudes de Nash.
    Bem, Leia a auto-biografia, bate em muitos pontos com o filme. Abraços

    • girsaum
      outubro 4, 2016 às 15:56

      Olá Ana Paula. Concordo que a auto-biografia deva mesmo ser interessante e esclarecer alguns pontos, mas também acho auto-biografias são muito enviesadas, sempre temos coisas que queremos esconder ou mostrar de um jeito um pouquinho diferente do que foi… Certamente entra na minha lista. Obrigado pela dica e grande abraço!

  16. setembro 1, 2016 às 01:38

    Muito interessante sua iniciativa! cá estava eu a viajaire achando este senhor um santo, após assistir ao filme…; aí vem você com essa bomba que literalmente explodiu em meu colo.
    Bem, só posso parabenizá-lo. Seu texto é enxuto e honesto, não é emocional e não denigre, só informa.

    Forte abraço.

    • girsaum
      outubro 4, 2016 às 15:53

      Muito obrigado Sylvio! Abraço

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