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De Victor Hugo a Ariano Suassuna

Não é nenhuma novidade dizer que a informação nunca esteve tão disponível como atualmente. À qualquer hora podemos acessar a internet através de diversos dispositivos eletrônicos e obter a resposta a qualquer dúvida que temos, seja o nome da capital da Croácia ou o PIB da Nigéria. Mas isso é bem recente, a quinze anos atrás a realidade era bem diferente.

E há 150 anos? Naquela época os índices de analfabetismo eram muito maiores que os atuais e, assim sendo, mesmo a maior facilidade de acesso a livros (resultado do advento da prensa móvel, invenção do século XV, de Gutenberg) não era garantia de conhecimento, o que adianta ter se não se sabe usar? É de se imaginar, portanto, que a ignorância popular era bem maior, que a falta de conhecimento do povo tornava os “detentores do saber” muito mais facilmente controlá-los. Mas não é bem assim, vejamos o um excerto abaixo, de um livro escrito no século XIX, há quase 150 anos, e as seguintes notas:

“Diga-se de passagem, não há nada mais odioso que o sucesso. Sua quase semelhança com o merecimento engana muito os homens. Para a multidão, êxito é o mesmo que superioridade. O sucesso, sósia do talento. Infelizmente tem um ingênuo que nele crê facilmente: a história. Somente Juvenal e Tácito se puseram a salvo dessa credulidade. Hoje em dia, uma filosofia quase oficial entrou em intimidade com a história, vestindo-lhe a libré e fazendo-lhe o serviço de porteiro. Ser bem-sucedido: eis a teoria. Progresso supõe capacidade. Ganhar na loteria: eis o máximo da habilidade. Quem triunfa é benquisto. Tudo está em nascer com a boa estrela. Tenham sorte, que o resto virá depois; sejam felizes, que o mundo tê-los-á como grandes. Fora cinco ou seis exceções notáveis que constituem o brilho de todo um século, a admiração contemporânea é simples miopia. O que é simplesmente dourado passa por ouro puro[1]. Ser o primeiro a chegar não constitui honra, a não ser que se chegue a ser alguma coisa. É o vulgar e velho Narciso adorando a própria imagem, aplaudindo a vulgaridade[2]. Essas qualidades excepcionais que formaram Moisés, Ésquilo, Dante, Michelangelo ou Napoleão, a plebe confere de repente, por aclamação, quem quer que consiga alguma coisa, seja lá o que for[3]. Que um notário se torne deputado[4], que um pseudo-Corneille escreva Tirídates[5]; que um eunuco venha a possuir um harém; que um Prudhomme ganhe acidentalmente a maior batalha de uma época; que um boticário invente solas de papelão para o exército de Sambre-et-Meuse e ganhe, com esse papel vendido como couro, quatrocentos mil francos de renda[6]; que um bufarinheiro, casando-se com a usura, a faça dar à luz de sete a oito milhões dos quais ele é o pai e ela a mãe; que um pregador se torne bispo porque fala fanhoso; que o mordomo de algum palácio saia dele tão rico que o façam ministro das finanças, não importa:os homens chamam isso Gênio, do mesmo modo que chamam Beleza à figura do Mousqueton e de Majestade à estátua de Cláudio. Eles confundem com as constelações do espaço as estrelas que os pés dos patos deixam impressas no lodaçal.

Os Miseráveis, Victor Hugo

[1] Isso me lembra um certo reality show… Não o ganhador do último, especificamente, mas de todos, que invadem a mídia como se tivessem algo a oferecer.

[2] O número atual de cirurgias plásticas no Brasil ultrapassa a casa de 700 mil por ano.

[3] Quantos será que já ouviram falar de Charles Kao, Venkatraman Ramakrishnan e Jack Szostak? Vencedores dos últimos prêmios Nobel (física, química e fisiologia/medicina) suas descobertas levaram a uma modificação direta na vida de vários seres humanos do que muitas celebridades.

[4] Clodovil (foi tarde), Frank Aguiar, dentre muitos outros. Neste ano teremos os candidatos Romário e Gabriela Leite (ex-prostituta, fundadora da “daspu”)

[5] Paulo Coelho é um dos escritores que mais vende livros no mundo, livros de astrologia, numerologia e outras pseudo-ciências vendem aos montes. À pouco, vi na livraria uma biografia “não autorizada” da escritora da saga crepúsculo. O que dizer então de José Sarney, “digníssimo” ex-presidente, na Academia Brasileira de Letras? Quer pior? O que dizer de Fernando Collor na Academia Alagoana de Letras?

[6] E o que dizer da moda atual? Já tem gente fazendo sapato com fezes de elefante (veja aqui). Calças custando mais de R$ 2.000,00 na Daslu, loja essa cuja dona foi condenada a mais de 90 anos de prisão (veja aqui) e hoje continua solta; loja essa na qual “celebridades” frequentam (me dói profundamente não usar o abolido trema aqui) apenas por status e self-marketing. Aliás, “celebridades” essas que assim se tornaram utilizando dos mesmos “atalhos” que Victor Hugo cita nesse parágrafo.

Infelizmente, juntamente com o mar de oportunidades que temos com toda a informação que nos é disposta com a rapidez de um clique no mouse, outro mar de futilidade é disposto em muito maior quantidade, e grande parte da mídia, por falta de competência (além de uma certa preguiça) de fazer coisas interessantes, boas, apela para o sensacionalismo barato e fácil em busca da audiência das pessoas que consomem freneticamente o fútil. Basta ver Datena mostrando mortos no chão, miseráveis (tão ou mais que os do livro de Victor Hugo) chorando a perda da miséria que possuíam, entrevista com assassinos e estupradores ao serem presos etc.; Márcia levando as brigas de esquina (ou mesmo de dentro de casa) dos bairros de classe baixa para o palco e transmitindo ao vivo para todo o Brasil; Sônia Abrão vasculhando “celebridades” em dificuldades, sejam elas financeiras ou de saúde, para mostrar o problema em seu programa, e também caçando mortos para fazer “homenagens”. E de madrugada? Uma enxurrada de canais exibindo os praticantes da arte de tornar-se milionário com o dinheiro dos pobres, na forma de “ajuda pentecostal”, na forma de igrejas com nomes bizarros do tipo “Igreja Mundial do Poder de Deus”… parece nome de golpe dos Cavaleiros do Zodíaco.

A mídia, por acordos financeiros obviamente, também contribui com a indústria fonográfica ao popularizar os ruídos que pessoas sem talento produzem em forma de música. Os donos das grandes gravadoras são os alquimistas do passado, com a diferença de serem bem sucedidos: os antigos nunca conseguiram transformar chumbo em ouro, já os modernos transformam merda em ca$h. Todos sabem que não é difícil comprovar cientificamente essa afirmação. O primeiro lugar das paradas de sucesso, atualmente, é Stefani Joanne Angelina Germanotta, mais conhecida por Lady Gaga. Antes dela surgiram outras tantas futilidades musicais “pop”, ainda atuantes, como Britney Spears e Beyonce. Ela é uma síntese do que Victor Hugo fala nesse excerto pois o mundo todo a coloca num pedestal como se fosse a entidade mais fantástica que já caminhou por seus pés na em nossa crosta terrestre, que inovou, mas… o que ela é? Stefani é nada mais que uma oportunista que entendeu toda a futilidade da música pop mundial e forjou uma personagem utilizando-se das características mais fúteis de suas antecessoras.

Vejamos, Spears popularizou um padrão que une o clipe à música, sendo o vídeo sempre uma mistura de sensualidade com danças que exigem uma certa forma física e a melodia sempre se utilizando de vozes tremidas e modificadas para esconder a insuficiência vocal da cantora, terminando assim por vulgarizar, em qualquer sentido da palavra, o pop. Toda essa pantomima deu certo, sendo que todas que surgiram à partir dela, como Beyonce, seguiram a fórmula. O sucesso, porém, como é usual quando advém às cabeças imaturas e fracas, corrompeu a jovem, que se afundou nas drogas, raspou a cabeça, bateu em “repórteres” (paparazzi). Chegamos então na falada inovação de Lady Gaga, ela percebeu que os consumidores desse tipo de música precisam de algo ridículo, fútil, então ela se ridicularizou, se “futilizou”, para caber no esquema. Só que ela o fez sendo ainda mais que suas predecessoras, porque ela fingiu assim ser, ou seja, fingindo-se propositadamente fútil ela se tornou fútil por querer parecer fútil para fazer sucesso, sendo tão eficiente nisso que até essa frase que eu escrevi soa ridícula. Mais que uma estratégia foi uma necessidade, visto que ela jamais conseguiria chamar a atenção pela sua beleza, originalidade ou sensualidade, adjetivos dos quais ela não possui. Foi assim que ela reinventou o conceito de pendurar uma melancia no pescoço para aparecer, e deu certo.

Sem perder o foco, mas ainda falando de música, que culminará na conclusão dessa postagem, vejamos algo que é disfarçado de cultura, mas é uma das coisas mais pobres em concepção artística, conseguindo ser muito pior que Lady Gaga: a banda Calypso. Nem preciso falar sobre a nula qualidade de suas melodias e a péssima voz, sem contar na incapacidade de cantar. Longe de ser bonita, Joelma se uniu a seu guitarrista, Chimbinha, longe de ser bom, e fez sucesso num país longe de ser crítico. Mais que sucesso, a banda conseguiu defensores fervorosos, que envolveu um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos: Ariano Suassuna, autor do popularíssmo “Auto da Compadecida” que retrata o povo nordestino em situações memoráveis com personagens formidáveis, como João Grilo, um sujeito esperto, aproveitador, que vive arranjando confusões, e Chicó (que meu amigo Gueza tanto admira), amigo covarde e mentiroso de João, além de outras obras, como “O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” e “O Rico Avarento”. Tomando conhecimento das músicas, o paraibano de João Pessoa falou o seguinte:

Falou o óbvio, sim, mas falou porque ninguém fala pra não se comprometer. Acontece que Ariano está acima desse problema, ele não precisa se preocupar com qualquer repercussão advinda dessa declaração, pois tem uma posição consolidada, sendo um dos maiores ícones da cultura brasileira. Para se ter uma ideia da realidade atual (pelo menos do povo brasileiro) do excerto dos Miseráveis, exponho aqui trechos de alguns comentários extraídos do youtube relativos ao último vídeo que eu inseri:

“esse velho merece é morrer com a boca cheia de formiga

ele que nunca vai conseguir receber uma plateia igual os dvds da banda calypo nem xega a metade do publico da calypsooo”

“velho idiota vai tomar conta da tua vida

tu ta velho demais vais se tratar deixa o sucesso dos outros

MESTRE INVEJA

sua beste

preconceituoso

nazista

burgues”

“maior flta de respeito que eu já vi, por ele ser tão importante mesmo, é que é deprimente essa atitude, de uma pessoa sem cultura, sem educação”

Além da falta de educação, senso crítico e visão de mundo dos manifestantes, vimos aqui a realidade do texto de Victor Hugo, há 150 anos atrás, sendo aplicada na realidade atual, onde o que importa é o sucesso, é a fama, e então essa fama é convertida em habilidade, em capacidade, em competência, em genialidade, a ponto do verdadeiro gênio, o verdadeiro habilidoso, o verdadeiro capaz, o verdadeiro competente, ser inferiorizado ao que mais inferior é pela população. Eles confundem com as constelações do espaço as estrelas que os pés dos patos deixam impressas no lodaçal.

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Categorias:Literatura, Mundo, Vídeos
  1. patrícia
    julho 13, 2011 às 20:55

    vai pro inferno seu velho ridículo e sem talento,talento não é criticar os outros,têm-se q aceitar as diferenças.Vc não sabe?foda-se.

    • girsaum
      julho 13, 2011 às 21:55

      Uma atitude ignorante como essa só ratifica o discurso de Suassuna.

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