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Por que não confiam na ciência?

“Sem margem de dúvida, 21 de maio é a data”, disse Harold Camping, um pastor evangélico norte americano, prevendo o fim do mundo para esse ano. Continuou “Haverá um enorme tremor de terra que fará o sismo do Japão parecer um piquenique escolar”. Ele não apenas disse, ele fez propaganda em rádios, ônibus, outdoors… Para avisar a todos que o mundo ia acabar, agora… como ele “sabia” disso? A resposta é óbvia, ele não sabia, mas não se deu por vencido. Depois do fracasso da previsão, ele disse: “O mundo foi julgado no dia 21 de Maio, mas foi um julgamento invisível. Não o podemos ver com os olhos, mas o julgamento já começou de forma espiritual”.

Julgamento invisível… Parece piada, não? Como aquela história “eu sabia que estava errado, mas estava testando vocês, ha-ha”. O problema é que as consequências desses devaneios de uma mente doente, decrépita e pútrida não são nada engraçadas. Várias pessoas que seguem esse pastor e crêem nas suas profecias não foram trabalhar, arriscando peder seus empregos, governos têm prejuízos com diminuição no comércio, em publicidade para diminuir o impacto da declaração e até uma mulher tentou matar os filhos.

O que a ciência dizia ao mesmo tempo? Que nada estava cientificamente previsto.

No Brasil, temos Jucelino da Luz, que afirma prever todos os desastres do mundo. No começo de cada ano, Jucelino disponibiliza em seu site previsões para os próximos 365 dias mas, curiosamente, nada daquilo acontece. Mas, mais curioso ainda, é que quando uma catástrofe acontece, como ocorreu no Japão em março, seu site é atualizado num prazo de 12 horas, com uma carta, cheia de carimbos e selos, que ele teria mandado ao governo local para evitar a catástrofe. Estranhamente, niguém recebe as cartas que ele afirma ter enviado, nem Ana Maria Braga sobre seu câncer, nem o governo da Indonésia sobre o Tsunami, nem os responsáveis pela TAM sobre a queda do avião, nem o governo do Japão. Jucelino é um mestre na arte de prever o passado e de adulterar documentos, como mostrou o site Ceticismo Aberto. (Você pode ler mais sobre Jucelino da Luz neste LINK).

O que a ciência dizia ao mesmo tempo? Que nunca houve NENHUMA evidência científica de paranormalidade confirmada.

Esses casos listados acima são apenas exemplos de casos notáveis onde a “sensitividade” e a “profecia religiosa” falharam. Nos últimos 10 anos tivemos uma avalanche de previsões de fim do mundo através de catástrofes. Na década de 1990 foi comum a previsão de desastres que matariam muitas crianças em parques de diversões no interior de São Paulo por “videntes”: nenhum nunca ocorreu. O que dizer então das consultas que as grandes emissoras de TV do país fazem a “sensitivos” e astrólogos para descobrir resultados de jogos durante a copa do mundo? E das massivas aparições dos mesmos no começo de cada ano, fazendo previsões de quem ficará grávida, quem vai casar, quem vai separar, como vai ser a economia? Por que será que se dá tanto valor a previsões espúrias, onde não há a mínima lógica para tais afirmações? Acho que conheço alguns motivos, mas vamos desenvolver.

A ciência é o melhor meio que existe para se fazer previsões sobre o futuro, para exemplificar, veja esse trecho do livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios” de Carl Sagan:

“[…]imagine que você queira saber o sexo do seu filho que está para nascer[…] Você poderia suspender um relógio de pulso ou um peso de fio de prumo acima do abdômen da mãe grávida; se ele balançar para esquerda e para direita, é um menino, se balança para frente e para trás, é uma menina. O método funciona uma vez em duas. […] Mas se você realmente quer saber, então você faz uma amniocentese, ou sonograma; e aí suas chances de acertar são de 99 em 100. Não é perfeito, mas é muito melhor do que uma em duas. Se você realmente quer saber, recorra à ciência.

Ou suponha que você queira saber quando é o próximo eclipse solar. A ciência faz algo realmente espantoso: ela pode lhe dizer com um século de antecedência onde o eclipse ocorrerá na Terra e quando, digamos, chegará à totalidade, com precisão de segundos. Pense no poder de predição que isso significa. Imagine o quanto você deve entender para ser capaz de dizer quando e onde ocorrerá um eclipse num futuro tão distante”.

Há muitos outros “futuros” que podemos prever com precisão através da ciência. Através de exames genéticos, podemos saber se a pessoa tem predisposições a diversas doenças, como câncer (mama, intestino etc), lúpus eritematoso sistêmico, AIDS/HIV-1, síndrome de Li-Fraumeni, glioma etc. Um recente exame de retina consegue identificar com 20 anos de antecedência se uma pessoa terá mal de Alzheimer. Através de análises espaciais, podemos saber se há um imenso asteróide em rota de colisão com nosso planeta, também conseguimos prever atividades solares, e solicitar atitudes que evitem alterações drásticas no meio ambiente.

Apesar disso, muitas pessoas persistem a acreditar em “visões sobrenaturais”, leituras de cartas, astrologia… E isso não muda muito de acordo com o grau de instrução da pessoa: vemos pessoas ricas, famosas, com educação nas melhores escolas, totalmente supersticiosas.

E eu pergunto novamente, por quê?

Um dos motivos, ao meu ver, é que a ciência não é sensacionalista, não busca causar impacto e está sempre mantendo o compromisso com a verdade. Ao contrário, os senhores da superstição (“sensitivos”, astrólogos, “paranormais”, tarólogos) buscam sempre uma “descoberta” extraordinária para ficarem em evidência e aumentar o próprio prestígio. Pouco importa se a “previsão” vá causar prejuízos no governo, em pessoas, em crentes, no comércio. O que que importa é acertar pelo menos uma grande e ficar rico. Como fez a Mãe Dinah, ao dizer que via uma nuvem (ou algo do gênero) sobre o grupo Mamonas Assassinas (ela não disse nada sobre acidente aéreo ou morte) e pronto, bombou! E o público não se importa se ela errou milhões de vezes antes, como dizer que Fernando Collor faria um excelente governo, que começaria a III Guerra Mundial em 1984 e que, em 1994, Senna teria um grande ano e o Brasil perderia a copa. E por que não se importa?

Isso me leva a outro motivo. A ciência, além de ser pouco ensinada, é MAL ensinada. Livros didáticos ensinam muito sobre O QUE a ciência descobriu e pouco sobre COMO a ciência o fez, o que é muito mais importante e valioso. Aprendemos que E=MC², mas não como Einstein chegou a isso. Aprendemos que os dinossauros foram extintos há ~65 milhões de anos atrás, mas não aprendemos como sabemos essa data. Aprendemos que π=3,14159… mas não o PORQUÊ desse valor. A ciência, sem sua melhor parte se torna chata, trôpega. O que mais da prazer na ciência é o meio de descoberta, o raciocínio, o desenvolvimento da técnica necessária para um experimento, mas isso é podado nos livros didáticos. É como ver o resultado de um jogo de futebol ao invés de assisti-lo, ler que Pelé marcou contra a Suécia na final da Copa de 1958 e não vê-lo matar majestosamente a bola no peito e dar um magnífico chapéu no zagueiro antes de assinalar.

Dessa maneira, a ciência se torna sem sal, muito menos interessante para os leigos que um cidadão vestindo roupas não convencionais dizendo (mentindo) que um planeta gigante se aproxima da Terra e vamos todos morrer. Daí chega ao ponto de um ignorante acreditar que recebe mensagens de ETs dizendo que é para todos se matarem quando o cometa Hale-Bopp passar, pois a nave estará logo atrás dele para levá-los!

Enquanto os charlatões chocam, a ciência é parcimoniosa (como deve ser). E a mídia vai atrás do que dá audiência, pouco importa se é ou não verdade.

Outro lado perverso das notícias sensacionalistas aparece na forma de “teorias da conspiração”, criadas por pessoas que não entenderam o que é ser cético e criam teorias absurdas alternativas a fatos certos bem relatados. Dentre essas teorias está a de que o homem não foi à Lua, aparecimento de ETs encobertos pelas nações e o fato do 11 de setembro ter sido causado pelo governo dos EUA!

Em meados do ano passado, houve uma montanha de vídeos pela web de pastores conspiracionistas dizendo que não era para se tomar a vacina contra a gripe H1N1 pois era a marca da besta e se tomassem, todos iriam para o inferno ou algo do gênero. Quem estivesse do lado do bem, do lado do Senhor, era para ficar longe da vacina.  Outros diziam que a vacina causava autismo. E de nada adiantava a ciência dizer que não era possível isso acontecer. Imagine só o quão perigosas são essas afirmações! Muitas pessoas deixaram de tomar a vacina devido a (perdão da palavra) imbecilóides falarem absurdos como esses. Isso é um caso de saúde pública sério, não tomando a vacina de uma doença potencialmente perigosa, a pessoa, além de poder ser infectada, ela ajuda a disseminar um vírus perigoso e gerar a morte de muito mais gente indefesa que, por ocasiões de interações medicamentosas ou possuir alguma outra doença, não pôde se imunizar! Isso é caso de prisão!

A falta de confiança e compreensão da ciência, juntamente com a divulgação desenfreada de crenças desprovidas de bases, pode afetar também seriamente a educação dos brasileiros. Um bom exemplo disso é a tentativa praticamente insana de obrigar os professores de ciência tratar um fato (a evolução) como teoria duvidosa e uma crença cientificamente improcedente (o criacionismo) como teoria científica emergente plausível. E se fala seriamente nisso. Já escrevi AQUI sobre o assunto. Vemos o quão isso está permeada nos meandros do conhecimento com o depoimento do (ex?)jogador de futebol Denílson, que declarou na TV que está certo de que os dinossauros nunca existiram. Na internet vemos vídeos com profissionais da área da saúde dizendo o absurdo de que a carne apodrece no estômago e que animais herbívoros não têm câncer, para defender o vegetarianismo.

Podemos observar, assim, o quão perigosas podem ser uma superstição e uma ideologia fanática e, principalmente, a propagação destas para a população, podendo se transformar numa doutrinação. A mídia descompromissada é cúmplice desse cenário e muitas vezes protege charlatões mesmo quando estes são desmascarados. O ensino científico não direcionado também favorece para a aparição desses tipos. Com isso, a educação é afetada e tudo pode virar uma bola de neve. A educação precisa ensinar direito e a mídia deve dar apoio, senão estaremos cada vez mais sujeitos a absurdos acontecerem devido a visão de um idiota ou coisa que valha.

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Categorias:Charlatanismo, ciência
  1. Homero
    maio 27, 2011 às 12:27

    Olá

    Muito bom o texto, e muito boa argumentação. Especialmente sobre se ensinar ciência sem se ensinar “como se faz ciência”, como se sabe o que se sabe em termos de conhecimento científico.

    Eu também acho que essa é uma das maiores falhas do sistema de ensino, e uma das maiores causas de tanta crença sem sentido.

    Um abraço.

    Homero

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