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Livros que Li: Os Miseráveis

Muitas pessoas tem o dom de escrever bem, uma pequena parte deles consegue publicar algum livro, uma parte menor ainda consegue sucesso com seus livros e são raríssimos os que produzem obras imortais que, independente do tempo, ainda causarão reflexões atuais. É o caso de Homero, Aristóteles, Dostoiévski, Cervantes, Shakespeare, Dante Aliguieri, Tolstói, Camões, Proust etc.

Victor Hugo é um desses escritores gênios que atravessarão os séculos como imortais e, assim sendo, fica complicado dissertar sobre a magnum opus de um autor que é estudado massivamente por mestrandos, doutorandos, doutores das mais diversas áreas. Mas o faço com o intuito apenas de expressar minha satisfação ao término de tal obra.

A edição que eu li (mostrada na foto) é magnificamente rica, com 1280 páginas preenchidas com 816 notas de pé de página elucidativas do contexto histórico e cultural da França no século XIX, numa edição de capa dura impecável com lindas imagens entre um capítulo e outro.

Para quem não conhece a história, ela se passa na França do século XIX, entre a Batalha de Waterloo e os motins de junho de 1832. Jean Valjean é o personagem principal, um miserável, que cumpriu pena de 19 anos de serviços forçados por roubar um pão para dar a sua família. Tudo gira em torno dele, direta ou indiretamente, ou seja, tudo que o afeta ou afetará sua vida após sua libertação.

Mas a história não é SOBRE ele, mas sim sobre a MISÉRIA, as causas dela e as consequências para os que nela vivem. Através desse simples homem, mantido ignorante pela política e tornado criminoso pela sua ignorância, Victor Hugo expõe o quão castrativa é a falta de conhecimento, de oportunidade e acesso à educação. Todo enredo que envolve Jean Valjean expõe a crueldade que é a condenação à ignorância. E não apenas ele é vítima dessa perversa pena, outros personagens importantes também têm seu destino selado (negativamente) pela miséria, como é o caso de Fantine, Cosette, Éponine e Gavroche. Esse tema é um dos motivos de a obra ser tão atual, mas para falar da atualidade da obra, nada melhor que o sucinto prefácio escrito pelo próprio autor:

Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século – a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância – não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis

Tranquilamente, o autor vai narrando e descrevendo um ambiente ricamente detalhado no qual o leitor se sente fazendo parte dele. É como estar presente na França e presencear a dura vida dos menos favorecidos, provar a incapacidade que a falta (e também o impedimento) de oportunidade causa. É incrível como, através de palavras impressas, podemos mergulhar nas lamas das ruas dos bairros pobres de Paris, sufocar na prisão do convento mais rígido da França, fugir dos inimigos mais ignorantes, provar do ciúme mais verdadeiro, penar na desgraça mais injustamente imposta.

Victor Hugo aproveita não apenas o enredo da história para dar sua opinião, como também cria capítulos específicos para falar diretamente sobre ela, sem pressa ou intenção de resumir para deixar a leitura mais fluida. Também faz capítulos longos apenas para descrição de determinados eventos, cujo detalhamento excede sua necessidade para fazer entender a história. Entre estes, podemos citar a descrição do labirinto das galerias subterrâneas do esgoto de Paris, a narrativa da Batalha de Waterloo e um que ele descreve tudo que aconteceu no ano de 1817. Mas uma história não deve se restringir apenas ao que é necessário e, num livro do porte d’Os Miseráveis, nada é dispensável.

Não me estenderei mais, se fosse comentar cada propriedade desta maravilhosa obra, eu teria que escrever o dobro das 1280 páginas. Só me resta falar que este livro é cultura, é conhecimento, é aprendizado, é romance, é prazer. Não é recomendado, é obrigatório.

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