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Criacionismo nas Escolas: Tendência Mundial?

fevereiro 6, 2012 1 comentário

Fiquei sabendo sobre esta matéria através de uma nota de repúdio publicada na página do facebook da Liga Humanista Secular, da qual sou membro. Então resolvi escrever essa postagem na esperança de que alguém que esteja procurando sobre esse mar de mentiras, venha ocasionalmente parar aqui para uma visão científica do neo-darwinismo despido de manipulações de fanáticos.

O site evangélico “verdade gospel” publicou semana passada uma notícia intitulada:

“Alerta: criacionismo nas escolas pode ser tendência mundial”
http://www.verdadegospel.com/criacionismo-nas-escolas-pode-ser-tendencia-mundial/

Como era de se esperar, a “notícia” vem recheada de preceitos e informações (ao meu ver, intencionalmente) erradas sobre o evolucionismo, na peregrinação crente de deseducar os bem informados e manter ignorantes científicos seus fiéis. Com o intuito de esclarecer essas mentiras, comentarei a seguir cada uma delas, separadamente.

“Esse processo [evolução] significa que os mais fortes sobrevivem e com a combinação de seus genes geram filhos mais fortes. Assim, cada geração é mais forte que a anterior, e os fracos da espécie são extintos.”

Esse é um erro muito comum na compreensão da evolução neo-darwinista. Uma palavra fundamental na definição do evolucionismo aqui foi trocada (na minha opinião, de forma intencional e perniciosa). Não são os mais fortes que sobrevivem, mas sim os mais adaptados. Um bom exemplo é a extinção no final do período mesozóico, mais precisamente o final do cretáceo, em que os grandes répteis, os animais mais fortes do planeta na época, sucumbiram com o impacto de um meteoro gigantesco e com as consequências do evento, mas os pequenos mamíferos, não. Ora, os mamíferos daquela era não possuíam um centésimo da força dos grandes répteis que reinavam absolutos nosso planeta, mas eram capazes de se esconder deles, eram difíceis de caçar e precisavam de pouca quantidade de comida. Essas características mais “humildes” desses pequenos roedores lhes garantiram a sobrevivência ante às adversidades climáticas ocasionadas pela catástrofe. O mais fraco e menor teve mais sucesso que o mais forte e maior, pois era mais adaptado para sobreviver naquele cenário.

“Muitos ligam o ensino deste pensamento a conceitos de ateísmo, segundo o Urban Christian News.”

Aqui encontramos uma afirmação genérica sem qualquer embasamento. O correto seria ao menos citar uma pesquisa que demonstrasse o fato alegado. O ateísmo, como bem sabemos, nada tem a ver com o evolucionismo, mas sim na descrença em um ou mais deuses. Mas, como os evangélicos são cegos (alguns intencionalmente?) à essa razão, e como, em geral, demonizam o ateu, eles forçam a ligação de uma coisa a outra para demonizar tudo, fazendo com que seus fiéis rejeitem ambos.

“O norte-americano republicano Jerry Bergevin, por exemplo, associa o ensino da teoria da evolução às atrocidades de Hitler e à falta de respeito aos direitos humanos em países como a União Soviética, Cuba, os nazistas e a China atual.”

Essa acusação é tão batida e descabida que eu nem deveria me designar a responder, mas como essa é uma postagem de esclarecimento, eu vou repetir o que é sempre dito. Primeiro que, para fazer essas afirmações, é evocado o nome de um ninguém que não é nada, apenas republicano, como se isso desse um selo de qualidade a alguém. Seguindo…

Teoria da Evolução e as atrocidades de Hitler: o que Hitler praticou foi a eugenia, ele acreditava que a então chamada “raça ariana” era superior e queria mantê-la “pura”, impedindo que os cidadão alemãos tivessem descendentes mestiços, seja com judeus, negros ou deficientes mentais. Isso tem muito menos a ver com ciência do que com crença, pois era uma crença de que os alemães eram superiores. Além do mais, seu objetivo não era fazer com que houvesse uma evolução da raça ariana, mas sim “evitar sua degeneração” com “cruzamentos impróprios”, a raça ariana já era considerada “mais evoluída”. Inclusive, basta entender corretamente a evolução e um pouquinho de genética para saber que a miscigenação é benéfica, dois bom exemplos é a incidência muito maior da Síndrome de Bloom em judeus Ashkenazi (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10464606) e da doença de Tay-Sachs (http://www.mazornet.com/genetics/tay-sachs.htm) nos mesmos, devido a casamentos internos, comuns nesta cultura. E Hitler era cristão, não ateu.

Os países comunistas desrespeitam os direitos humanos não por causa da seleção natural (isso é um absurdo!), mas sim pela sede de poder dos governantes que levam ao extremo e interpretam mal (intencionalmente) a filosofia comunista. Interessante que o texto acusa o que não há pra se acusar e “omite” a falta de respeito aos direitos humanos nos países regidos unicamente por uma religião, como é o caso dos países árabes. O texto também omite o fato de países com maior número relativo de descrentes serem os melhores para se viver (http://bulevoador.haaan.com/2011/04/22175/)(http://ex-cristao.blogspot.com/2007/09/causas-sociais-do-atesmo.html)

Esse início do artigo foi apenas uma introdução para que o leitor já ligue diretamente o ateísmo a uma coisa ruim, o ateísmo ao evolucionismo e, consequentemente, o evolucionismo a uma coisa ruim. Vejamos o que vem em seguida:

“Segundo sua declaração à publicação Concord Monitor, a ideia evolucionista ‘é uma visão mundo que não contempla Deus. O ateísmo tem sido tentado em várias sociedades e tem induzido a crimes de desrespeito aos direitos dos cidadãos.'”

Fala que a idea evolucionista não contempla Deus… Mas não menciona que a ICAR, a maior igreja cristã do mundo, aceita o evolucionismo, e isso não abala a fé de seus fiéis. O evolucionismo nada tem a ver com o ateísmo, ele simplesmente explica como as espécies evoluíram, isso é ciência.

Depois ele manipula o discurso, e já não fala em ensino do evolucionismo, mas sim em tentativas de induzir sociedades ao ateísmo! E o ateísmo levando a crimes, como se todos criminosos fossem ateus. Estudos já mostraram que isso é uma falácia, aqui colocada apenas para demonizar o ateísmo (http://ex-cristao.blogspot.com/2010/08/criminalidade-e-o-fator-deus-no-coracao.html).

Também fala em desrespeito aos cidadãos, quando são religiosos que, muitas vezes, querem tornar suas crenças em leis para que todos, quer compartilhem ou não de suas crenças, façam e sigam exatamente o que eles acreditam ser o correto. Isso sim é desrespeito. Um bom exemplo é a Arábia Saudita, país onde a apostasia pode ser punida com a morte.

Chega a vez do Brasil:

“No território brasileiro, onde o evolucionismo é ensinado em larga escala nas escolas, o criacionismo já está crescendo e ocupando um espaço maior nos livros didáticos.”

Foge do meu conhecimento esse dado. Até porque ele foi inventado. O criacionismo não pode ser ensinado nos livros didáticos, até porque criacionismo não é ciência (https://worldevolution.wordpress.com/2009/11/24/criacionismo-nao-e-ciencia/)

“as igrejas precisam promover mais encontros e eventos para debater o assunto e dissipar os mitos em torno tanto do evolucionismo quanto do criacionismo”

As igrejas? Está claro, nesse curto artigo, que a igreja não tem capacidade de educar cientificamente quem quer que seja. O evolucionismo é, e deve ser, ensinado na escola, o criacionismo é fé, e nada tem a ver com educação.

“Para o reverendo, os jovens cristãos muitas vezes não têm fundamentos sólidos para responder aos ataques de ateus e evolucionistas nas salas de aula e principalmente nas universidades.’Não é de admirar que muitos jovens evangélicos percam a fé quando entram na universidade, onde são confrontados com uma visão de mundo evolucionista, naturalista e ateia’, diz.”

Ataques de ateus e evolucionistas, como se fossemos perversos destruidores de fé. Se jovens perdem a fé por conhecerem o evolucionismo, isso não significa que o evolucionismo não exista, mas sim que esse tipo de fé tem bases tão fracas que é capaz de desmoronar por uma simples constatação científica real.

“Um dos poucos argumentos que unem fé e ciência é a teoria do ‘design inteligente’, que afirma a existência de uma ‘mente inteligente’ por trás de cada aspecto da vida, particularmente nas informações contidas nas moléculas de DNA das células.”

Refutei o “design inteligente” AQUI também.

Recomendado: Qual a situação da Educação Científica no Brasil

Esclarece bastante coisa.

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